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Receber: é sempre mais do que o que damos…

Desde que me lembro, sempre que queria receber algum brinquedo ou roupa nova, a minha mãe fazia-me olhar para o que tinha e selecionar o que queria dar. Só depois me comprava brinquedos e roupas novas.

Nome: Francisca Brito Pereira

O que faz na Jason: Consultora.

Lembro-me de às vezes não me querer desfazer do que tinha. A minha mãe sentava-me e dizia: “Francisca, tens duas mochilas, há meninas que não têm nenhuma, achas que não podes dar uma?” Com estas questões desarmava-me, e lá ia eu buscar a mochila, os brinquedos, as roupas…

Soube, desde tenra idade, que essas meninas e meninos existiam. Mas a minha mãe não se limitou a falar-me sobre eles. Um dia, levou-me até eles. Esse, foi um dia que nunca esqueci.

Andava na primária, devia ter oito anos. A minha mãe disse-me a mim e aos meus irmãos para selecionarmos roupas, brinquedos e material escolar. Juntou tudo, encheu a mala do carro, sentou-nos lá dentro e levou-nos até um orfanato.

Quando chegámos, estacionámos no pátio à frente da casa. Os meninos e meninas foram aparecendo curiosos. Um dos mais velhos foi chamar o responsável enquanto a minha mãe descarregava os sacos do carro. Os mais novos aproximavam-se. Enquanto a minha mãe falava com o responsável, um deles que devia ter a mesma idade que eu, perguntou-me o que trazíamos ali. Abri um dos sacos e mostrei-lhe uma mochila. Uma daquelas que os delegados de propaganda médica davam à minha mãe, e à qual eu e os meus irmãos não dávamos valor. Pegou nela com os olhos a brilhar e perguntou-me “Posso ficar com ela?”. Disse-lhe que sim. Presenteou-me com um sorriso rasgado que eu nunca tinha visto antes. Sorriu-me como se eu lhe tivesse dado o mundo, como se lhe tivesse dado um tesouro. Nunca esqueci esse sorriso.

Desde aí, a iniciativa de selecionar roupas e brinquedos para dar, já não precisava de partir da minha mãe. Já a fazia espontaneamente, fazia-a pelos sorrisos.

O tempo foi passando e eu ansiava pela oportunidade de fazer mais do que apenas dar bens materiais. Tive a sorte de estudar num colégio que promovia atividades de voluntariado e com 14 anos, deram-me a oportunidade de começar a apoiar crianças de bairros carenciados. Uma vez por semana, depois das aulas, ia à escola destas crianças e ajudava-os a fazer os trabalhos de casa e a estudar. Ouvia-os falar sobre a família, sobre o futuro e sobre os seus sonhos.

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No verão fui monitorizar um campo de férias para todos eles. Miúdos que pareciam fortalezas, mas que tinham a mesma sede de carinho de um bebé. Miúdos que não se deixavam entusiasmar demasiado porque tinham medo. Estavam habituados a perder aquilo que gostavam. Miúdos em que foi preciso entrar devagar, ganhar a confiança que tantas vezes foi quebrada, para depois conseguir chegar ao seu fundo doce e carinhoso.

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Numa das noites no campo de férias, sentámo-nos cá fora na relva enquanto cantávamos músicas ao som de uma guitarra. Durante essa noite, tinha uma menina sentada ao meu colo. Uma menina pequenina e franzina de 6 anos, a Mariana. Eu olhava para o céu estrelado, um daqueles céus deslumbrantes que só vemos fora da cidade. Enquanto eu olhava perdida na magnitude daquele céu infinito, ela chamou-me à atenção “Monitora, vês aquela estrela muito brilhante ali no céu?” Disse-lhe que sim. Ela, com uma simplicidade desarmante, acrescentou “é a minha mãe que está a olhar por mim.”

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Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Quis chorar, mas sabia que não podia. Então, acrescentei apenas, “ela vai estar sempre a olhar por ti.” Apertei-a com mais força e continuámos a cantar.

Este foi outro momento que nunca esqueci. Histórias como estas ensinaram-me a pôr em perspetiva os meus problemas. Ensinaram-me a perceber a sorte que tenho e a estar grata. Fizeram-me também perceber que nada nos enche mais o coração do que encher o coração dos outros. Nada nos dá um maior sorriso do que colocar um sorriso na cara dos outros.

Nos anos seguintes acompanhei sem-abrigo pela cidade do Porto, levei-lhes comida, roupa e medicamentos. Mas levei-lhes sobretudo tempo. Tempo para conversar, tempo para os ouvir. E ensinaram-me muito. Ensinaram-me o poder das escolhas, o amor pelos seus, mostraram-me a dor do arrependimento, falaram-me da vergonha e do desespero de uma forma crua, despretensiosa. Prostitutas falaram-me dos seus clientes, drogados falaram-me do seu percurso de decadência. Pais que perderam o emprego, falaram-me da luta diária para não perder os filhos. Diziam-me muitas vezes “nunca faças o que eu fiz”.

Todas estas pessoas, desde o menino que me sorriu com a mochila nova, passando pela Mariana que me fez olhar para o céu de uma forma diferente, até aos sem-abrigo que me falaram sobre o que é importante na vida, fizeram-me perceber que sempre que damos, ficamos mais cheios.

Quando damos o nosso tempo, as nossas roupas, os nossos brinquedos, quando damos um abraço e levamos uma reconfortante sopa quente a alguém, estamos sempre a receber mais do que o que damos. Não é palpável o retorno, mas sente-se, preenche-nos por dentro, muda-nos e torna-nos pessoas melhores. Se queres receber mais da vida, dá mais.

Para saber mais sobre a história da Francisca: hed@jasonassociates.com

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